Novo perfil do jovem do campo aponta identidade mais próxima da juventude urbana |
Por Luiz Felipe Campos, da Ascom/UFPE Dividido entre o trato com a terra e a vida urbana, entre o divertimento no açude e na lan house, entre o ir e o ficar em sua terra de origem. Assim o novo jovem do campo é compreendido na pesquisa de doutorado em Sociologia pela UFPE de Maurício Antunes Tavares, intitulada "Caminhos Cruzados, Trajetórias Entrelaçadas: vida social de jovens entre o campo e a cidade no Sertão de Pernambuco". Na obra, o jovem sertanejo aparece em consonância com o mundo ao seu redor, em permanente transformação. Em seu trabalho, o pesquisador versa sobre como expectativas, anseios, trabalho e lazer dão uma nova configuração ao jovem do Sertão, em sua relação com o campo, com a cidade e consigo próprio. A vida cotidiana sob a ótica desse novo jovem, trocando em miúdos.
Na comparação com o seu semelhante da cidade, o pesquisador encontra mais em comum do que a aparência pode revelar. O sociólogo identifica o jovem do Sertão como sendo alvo de alguns dos mesmos problemas do jovem da cidade. “O rural brasileiro, o rural do Sertão, como apontei na pesquisa, também é espaço de conflitos, da violência do narcotráfico, da circulação de drogas e armas, da prostituição, é demarcado por lugares perigosos, ‘interditados’, discriminados, em contraste com os lugares socialmente valorizados, seja por causa da produção de alimentos ou pela paisagem natural; tudo isto atravessa a vida do jovem rural, não são problemas exclusivos do jovem urbano”, afirma. Por outro lado, argumenta que não se pode perder de vista que as diferenças e as desigualdades sociais desautorizam qualquer tentativa de reduzir as diferentes experiências dos jovens a uma categoria unificadora: não se pode falar em juventude, e sim em juventudes plurais. Ainda pontua que essa distinção não é determinada pelo meio físico em que vivem os jovens da cidade e do campo, mas pelas relações sociais desenvolvidas entre as pessoas, o lugar, e o campo de possibilidades de vida que lhes é oferecido.
“A pesquisa foi como um mergulho nas brenhas do sertão”, o autor define em seu trabalho. Para a elaboração de sua tese, Maurício Antunes tomou como campo de pesquisa o município de Ibimirim, a 327 km de Recife, no Sertão do Estado, uma região que, desde a década de 1950, é marcada por intervenções estatais para a implantação de agricultura irrigada e que também foi maculada pela alcunha de Polígono da Maconha. “A idéia da pesquisa nasceu quando, em 2004, no município de Ibimirim, deparei-me com jovens que viviam expectativas opostas em relação às possibilidades futuras que poderiam ter naquele lugar do Sertão”, afirma Antunes. Partindo na contramão dos estudos que se debruçam sobre o sertanejo retirante, o pesquisador lançou o olhar sobre os jovens que ali vivem e também sobre os que retornaram ao seu lugar de origem. “Ao fazer o movimento contrário a essas pesquisas que exploram os motivos dos que partiram, consegui dar mais visibilidad e aos processos sociais e às ideias que fazem parte da vida quotidiana dos jovens do campo e da cidade, no pequeno município do Sertão nordestino”, conclui.
O pesquisador situa esse jovem como território fértil de projetos e sonhos, em contraste com sua condição natural de sertanejo. De acordo com Antunes, essa geração de jovens do campo é a primeira a experimentar a vivência cotidiana entre o rural e o urbano, em função do aumento da escolarização das populações do campo, que é favorecida pela massificação do transporte escolar desde a instituição do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério). De acordo com o autor, esse trânsito permanente entre a cidade e o interior traz influências novas para os jovens; aumenta as trocas intersubjetivas entre jovens do campo e da cidade; difunde estilos, gostos, modas; provoca encontros e diminui estranhamentos. Maurício Antunes ainda afirma que a relação travada entre o jovem e a terra é o ponto de partida de suas expectativas de vida futura: “nem todos os jovens que vivem no campo são ou querem se r agricultores, mas como a maioria desses são filhos de agricultores, eles vivem uma experiência muito distinta e que está ausente nos jovens urbanos, que é de ter que decidir, sempre, se querem ser agricultores ou não, ou seja, para decidir ‘o que vai ser quando crescer’, o jovem filho de agricultores deve partir sempre desse mesmo ponto: a sua relação com a terra”.
Segundo o autor, é preciso, antes de tudo, definir esse jovem para compreendê-lo perante seu contexto sócio-cultural. “Quem pode ser chamado jovem rural? O filho do agricultor? O jovem que mora no campo? Ou o jovem que trabalha no campo? A pesquisa explorou as diversas percepções dos jovens sobre o campo e a cidade a partir das variáveis atividade/trabalho e lugar de moradia. Há jovens agricultores que não gostam de morar no campo, justamente porque preferem a dinâmica social urbana, e há jovens que trabalham na cidade, mas que preferem a vida no campo, entre outras combinações verificadas. É preciso situar o pertencimento do jovem ao rural ou ao urbano a partir de seu modo de vida, real e desejado”, argumenta.
Ao contrário dos seus pais e avós, a mocidade do campo experimenta a influência do urbano em doses bem maiores. Em sua tese, o autor afirma que, enquanto a relação dos mais antigos com a cidade sempre foi esporádica e mediada pela família e pela igreja, os mais jovens têm a escola como orientadora de sua convivência diária nos centros urbanos. Nessa nova configuração, campo e cidade são espaços complementares, encarados pelo jovem do interior como necessários para adquirir bens da vida moderna, cidadania, autonomia e lazer.
O autor tem o cuidado de assinalar a heterogeneidade das trajetórias de vida que ilustram seu trabalho. “É uma forma de não ‘pasteurizar’ a vida social e de fazer uma sociologia que trate das grandes questões sociais, sem abandonar a perspectiva de tratar da vida quotidiana nessa sociedade de indivíduos”, conclui.
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Mauricio Antunes Tavares é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (81) 3073.6485 mauricio.antunes@fundaj.gov.br |